Todo Skinhead já foi Negão!!!

 A revista VOID publicou na sua 68ª edição uma matéria bem interessante sobre os nossos amigos da You And Me, e seus fabulosos compactos 45rpm do melhor estilo original.!

E como hoje é o dia de som aqui na save, resolvi preparar um “resumo” da matéria, quem curtir e resolver se aprofundar mais na imensa cultural musical jamaicana pode acessar o blog dos caras, e baixar alguns dos milhares de álbuns que os caras disponibilizam pra download na rede, aproveitando sempre para ler as curiosidades históricas de cada um deles e curtir ótimos podcasts!!!

Link: You And Me On A Jamboree

 

Na real, a história toda começa na Jamaica, com os Rude Boys, muito antes de um tal Bob Marley dizer em alto e bom som que atirou no xerife. Os Rudes formavam a galera que curtia e fazia reggae, andava em Lambretas, raspava a cabeça e delinquia; e é esse nicho que a Jamboree explora. “Aqui em São Paulo a gente ainda não tinha essa discotecagem. Aí eu passei a visitar o blog You and Me , comecei a conhecer coisa para caramba por ali. Aí num aniversário da minha irmã eu decidi fazer uma festa lá em casa, com meus discos e meu toca discos. Juntamos com uns amplificadores velhos, uma caixa velha, um som ruim pra caralho. Chegou um amigo nosso e falou: ‘Porra, mano, esse som de vocês é mó jurássico, mó bagulho velho’” Foi daí que veio o nome do grupo que embala as noites bimestrais da Jamboree: Jurassic Sound System. A balada é forte e a trilha sonora é só na base do disquinho 7 polegadas e da vitrola amplificada por caixas de som monstruosas.

Jurássico, um dos DJs do clã, dá a letra sobre o que acha de tocar numa festa onde os skins se sentem em casa: “As fichas foram caindo… Tinha uma música do Marley que ele falava de Hooligan. ‘Caralho, Bob Marley falando de Hooligan’. Aí comecei a pesquisar e saber que os Mods ingleses começaram a se juntar com os rude boys jamaicanos que migraram para o Reino Unido  e aí surgiu essa nova cultura da época. Tanto que eu lembro que na estreia da Jamboree foi a primeira vez que eu vi aquele monte de skin e percebi que o skinhead tradicional rolava aqui também. Aí comecei a ter noção da história”, resume.

Para Jurássico, no começo o termo skinhead reggae causou uma estranheza do cacete, mas no fim das contas serviu para disseminar o gênero mundo afora, principalmente na Grã Bretanha e Europa em geral. Segundo ele, o que se pode chamar de banda podre do movimento skinhead brasileiro, que são os neonazistas e integrantes do grupo Carecas do Brasil, até tentou colar nas primeiras edições do evento, mas desencanou porque o ritmo que mais gostam, o ska, é intercalado com doses brutais de reggae e rocksteady. ”O ambiente foi limando essa galera que tentou se infiltrar e deixou o espaço para os que realmente entenderam o que era o skinhead reggae. Tanto que aqui é um dos poucos lugares que você pode pegar o microfone e falar: ‘Isso aqui é Skinhead’ sem ninguém torcer o nariz. Em BH eu já tentei fazer isso, de levantar a bandeira do skinhead reggae e vir nego me intimidar, falar que skinhead é nazista e o caralho. Tem gente que é radical a ponto de não querer entender”.

Skinhead do pelourinho

Na fila lá fora a audiência é eclética, mas ali estão os skins trads , skinheads que dão valor à camaradagem, ao antifascismo e às origens jamaicanas citadas no parágrafo anterior. Mesmo dentro de uma cultura uniforme (cabeça raspada + coturno Dr. Martens) o ecletismo está presente. Encontramos um exemplo disso na frente do bar. Enquanto figuras de suspensório e cabeça raspada fumavam unzinho com velhos rastafáris, um skinhead baiano chegava pra conferir o que tava pegando.
“O mais importante de tudo é a música, que é o que une todo mundo que tá aqui. Foi o que rolou antigamente: um monte de imigrante, um monte de gente que estava chegando na Inglaterra e todo mundo gostava do mesmo tipo de música”, diz Laion Pessoa, 20 anos e soteropolitano da gema. Ele também aproveita pra chutar pra longe a associação imediata que as pessoas e a mídia fazem entre skins e neonazistas. “Se você for conversar com os neonazistas, os caras não vão saber falar nada sobre a música, nada sobre como a cena começou. Eles se apropriaram de um negócio que não era deles. Os skinheads, desde a época dos Rudeboys, nunca tiveram medo de enfrentar as coisas. Os nazis se apropriaram de uma cultura que não era deles e colocaram um monte de coisa que não tem nada a ver”, declara.

 

 Na real, o que fodeu com o movimento foi o aliciamento que o National Front inglês fez com certos cabeças ocas que orbitavam em shows e eventos lá pelo fim dos anos 70 e meados dos anos 80. Colocaram na mente dos caras que a culpa pelo desemprego no país era dos imigrantes. Aí já viu: jovens desocupados + manipulação política = merda.

Sobre sustentar o visual em São Paulo, cidade onde há tretas com nazistas e desconfiança da família e patrões, Laion é bem direto: “Você tem que estar disposto a encarar suas escolhas, tem que ter caráter. Ser skinhead é ter coragem de se diferenciar da classe dominante e não é todo mundo que tem coragem de fazer isso. O cara que tá nessa é porque tem coragem”, sintetiza. Também na fila para entrar, já inebriado pela fumaça de Jah, um rapaz que quis se identificar apenas como Eduardo resolve contar como rolou o primeiro contato com o skinhead : “Quando eu era mais moleque eu ouvia mais um hardcore, um punk rock. Depois de muito tempo eu fui ver qual era a pegada do skinhead. Todo mundo fala mal, mas depois que você conhece passa a conscientizar as pessoas de que a cultura não é aquilo que a mídia passa. A mídia quer manipular, mano.” Apesar de querer aliviar a barra, confessa que o lance se dá nas ruas, e por isso não tem jeito: às vezes o pau canta forte. “Sempre rola confusão e pancadaria. Mas nóis é hooligan e corinthiano. Gaviões da Fiel, mano!”, resume Eduardo, que vem à festa pra tentar catar umas minas e também curtir sons do naipe de Toots and The Maytels, banda jamaicana clássica que mistura o ska com soul, reggae e rock.

 A turma de CWB

Curitiba também marca presença na Jamboree e um dos figuras que esbarramos na frente do pico foi Rodrigo Natal (A.K.A Tio Tone) que veio da capital paranaense pra garimpar uns discos e curtir a balada. Ele dá a letra sobre o preconceito com a cultura skinhead. “A questão do preconceito com o visual a gente sofre direto. Em Curitiba é um pouco menos porque conhecemos muita gente, mas o pessoal mais novo, que não conhece, tem bastante preconceito sim. Até porque a cidade lá já teve um histórico grande de violência com os nazis”, explica. Mas ele aproveita também pra lembrar o começo de tudo, a raiz negra, vinda da ilha jamaicana. “O sujeito que não tiver essa consciência não pode nem ser chamado de skinhead. Nossa cultura se assemelha muito mais com a cultura negra jamaicana do que com o mod inglês”.

Rodrigo citou o movimento Mod porque foi a essa turma que os negros jamaicanos se juntaram quando chegaram à Inglaterra. A empatia entre os dois grupos foi imediata e enquanto alguns dos branquelos britânicos passavam a deixar o cabelo crescer e começavam a ouvir o rock progressivo e psicodélico dos anos 60 e 70, outra fatia de jovens raspava a cabeça e se envolvia com os negros da terra de Bob, exaltando suas raízes operárias e suburbanas. Ficaram conhecidos como Hard Mods. Working Class total, sacou? Isso é skinhead. Aliás, falando em Hard Mods, topamos com um lá na frente da Jamboree. O também curitibano André Luiz, de 21 anos, cola por lá para curtir o soul que está no set do pessoal do Jurassic. Ah, e ele aproveita para esclarecer: “Pra mim hard mod é música negra, esse lance de Cachorro Grande é uma palhaçada da MTV”.

 Encurralando nazis sem porrada

Na onda dos esclarecimentos que rondam essa matéria, foi importante ter trocado ideia com Greg Fernandes, outro que faz parte da organização da Jamboree. O cara se considera um skinhead típico e já tomou cacete de neonazistas dentro do metrô de São Paulo. O revide está vindo aos poucos, com as pedradas musicais que a balada oferece. “Essa cena de skinhead reggae está crescendo e os nazis estão ficando encurralados, já estão vivendo uma crise de identidade, porque as pessoas já estão se informando mais (sobre skinhead) e não têm mais tanto medo”. Longe de pancadarias, Greg vive entre a raiva de nazis e a desinformação costumeira de punks bunda mole. “Deste jeito, fazendo festa e divulgando o verdadeiro som skin, eu já estou combatendo o nazismo e a falta de informação sem precisar chegar lá e bater de frente com os caras”.

Uma hora vai dar merda

Mais uma prova viva de que a cultura skinhead pode e deve conviver de boa com outras vertentes urbanas é o atualmente desempregado Leonel Cardoso, também conhecido por Skid. O cara é de Canoas, cidade da periferia de Porto Alegre e é integrante de uma torcida organizada do Grêmio desde os 14 anos. “Lá dentro o pessoal é mais do rap, do funk. Eu causo estranheza, mas tenho paciência para explicar para todo mundo a parada do skinhead”, declara Skid. No entanto, ele faz parte de uma fatia que se considera Sharp (Skinheads Against Racial Prejudice – na tradução: Skinheads contra o preconceito racial) e isso quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, o cara vai ter que enfrentar nazis pela rua. “Mas eu sou tranquilo, tenho uma ficha policial extensa, mas é por causa de briga em estádio, nunca por causa do skinhead. Por treta em estádio já fiquei até cinco dias em presídio”, recorda.

Apesar de andar com o mesmo visual dos demais skins, Leonel coloca um pouco mais de hardcore e bandas Oi!   no set list pessoal. “Tenho escutado bastante Lammkotze , que é da Alemanha, que fazem um som bom e mostram bem a real. A capa de um dos discos deles mostra cerveja, camaradas e as mulheres”, diz às gargalhadas. Com a mesma tranquilidade que fala de camaradagem e futebol, Skid também relata embates corpo a corpo com anarco punks. “Tivemos uma briga com eles um pouco antes de um show do Skatalites. Eles disseram para um amigo nosso que iam vir nos pegar, aí fomos cobrar satisfação cara a cara. Fomos para cima, o pau quebrou. O cara tenta conversar, mas tem dias que não tem jeito”, declara.

Outro que também já se envolveu em tretas é Tom (ele prefere se identificar apenas por esse apelido), que também frequenta as arquibancadas. “Se você toma a atitude de ser skin hoje em dia, vai acabar se fodendo em algum momento, vai acabar sendo preso, isso é certo”, profetiza. Mas é ele mesmo quem coloca panos quentes: “Com o tempo, o pessoal vai ver qual é o verdadeiro lance do skinhead. O punk passou por problemas semelhantes quando chegou ao Brasil.”

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Sobre Nat's

Design, ilustrador e editor da Hutbuttered Bras/Aus. Artista urbano, skatista e blogueiro nas horas vagas.

Publicado em 08/07/2011, em Music, Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Só acho que não deveriam confundir skinhead com nazistas..

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