Projeto no Jalapão: Safári Africano

O projeto apelidado de Out of Africa Brasil é, conforme divulgado, de autoria do ex-secretário de Saúde do Tocantins, Nicolau Esteves. (Foto: Divulgação)

Imagine 400 animais da savana africana livres numa área de 100 mil hectares de Cerrado. Para facilitar, visualize 28 elefantes, 10 leopardos, 22 leões, 10 chitas, 20 búfalos, 34 rinocerontes (brancos e pretos), 20 hipopótamos, 26 girafas, 30 zebras, 30 hienas e duas dezenas de cães selvagens, fora os 150 antílopes divididos entre kundus, impalas, elands e waterbucks. Além, claro, da nacional onça pintada. Todos desfilando no Jalapão, região turística do Tocantins.

Isso pode acontecer, caso o projeto Out of Africa Brasil — que tem o intuito declarado de “preservar” — seja aprovado pelas autoridades ambientais estaduais e federais.

O Estado Tocantins foi destaque nesse domingo, 30, na imprensa nacional. Matéria publicada no Estadão destaca um projeto que prevê a criação de um safári africano no meio do Estado. A intenção seria criar uma reserva de 100 mil hectares para acomodar de mais de 400 animais de 17 espécies.

Conforme a proposta, predadores e presas viveriam em uma área cercada, sem interferência humana – nem mesmo na qautão da alimentação. “Vai ser a cadeia natural mesmo”, ressaltou o ex-secretário na entrevista ao veículo.

O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001 e se encontra localizado no município de Mateiros, no estado brasileiro do Tocantins. (Foto: Divulgação)

A ideia é, conforme a proposta, a instalação de três hotéis nas proximidades que possam oferecer passeios para ver os animais de perto. Mas, segundo o Estadão apurou, as quantidades sugeridas de cada espécie a ser importada não parecem seguir nenhum estudo que aponte a proporção adequada entre predador e presa.

Prevê-se um investimento de R$ 350 milhões que será comandado pela recém criada OOAB – Conservação de Animais Silvestres e Proteção do Meio Ambiente S.A, cujo nome é formado pelas iniciais de Out of Africa Brasil

Até o momento, segundo a publicação, foi feita uma consulta ao Ibama do Tocantins, mas não teria sido enviado um projeto técnico.

Em entrevista ao veículo, a analista da coordenação de fauna do Ibama, Taciana Sherlock, informou que trata-se de “um pedido atípico e de proporções muito grandes”. “É delicado do ponto de vista da manutenção desses animais, da estrutura, do risco de fuga, dos acidentes que podem acontecer. Estamos vendo com muita parcimônia e sendo bastante reticentes”, disse ao jornal.

Sobre a ideia de que os animais tenham de caçar seu próprio alimento, Taciana foi um pouco mais descrente. “Como podemos liberar a importação de animais para trazê-los para cá para serem abatidos?”. Ainda conforme a matéria divulgada, por se tratar de um modelo inédito no Brasil – e talvez no mundo -, o Ibama avalia como ele deve ser analisado, já que não se encaixa em nenhuma categoria prevista de manutenção de fauna em cativeiro.

Vista do mirante na Serra do Espírito Santo, no Jalapão. (Foto: Divulgação)

Mas o empreendimento tem despertado interesse. Segundo um arquivo apresentado na consulta que lista todas as espécies a serem importadas, o projeto conta com patrocínio de empresas como Toyota, Shell, Mobil, Engen e Total.

Ainda conforme a matéria, ambientalistas que acompanham o processo mencionaram um suposto aval do governo do Tocantins pelo potencial financeiro do empreendimento.

Pesquisadores também questionam o porquê de um projeto com essas características se o intuito seria conservar a natureza.

Confira a íntegra da matéria.

Confira o vídeo de divulgação do projeto que já circula na internet:

 

Projeto nebuloso ganha apoio oficial

Segundo os depoimentos colhidos pelo ((o))eco, o Out of Africa Brasil contraria qualquer noção de bom senso ambiental e também quebra leis. O porte do investimento também impressiona. É semelhante ao custo previsto para a construção da arena Pantanal, em Cuiabá, um dos estádios da Copa 2014.

Não é difícil duvidar da veracidade do projeto. Parece uma pegadinha. Mas até onde ((o))eco conseguiu apurar é para valer, embora caracterizar em que estágio ele se encontra seja controverso.

Carvalho Pinto, um dos 3 sócios da OOAB e seu assessor financeiro, afirma que a ideia é embrionária.  Não haveria nada de concreto e a OOAB não disporia nem da área de 100 mil hectares ou dos recursos para levar a coisa à frente. “Isso tudo está só na nossa cabeça”, disse Pinto por telefone a ((o))eco. “A única coisa que a OOAB fez foi dar entrada nos órgãos ambientais para saber o que é necessário para construir um safári”.

Segundo ele, o problema começou com o vazamento do vídeo promocional na internet. “É um material interno que mostramos apenas para o Ibama e o Naturatins, não sabemos como isso foi parar na internet”, disse.

Enzo Alcayaga, assessor de comunicação da OOAB,  também entrevistado pelo ((o))eco deu uma versão diferente. Segundo ele, o projeto está pronto para sair do papel, conta até com “carta compromisso” do governador do Tocantins Siqueira Campos, documento que coloca por escrito seu apoio.

“Está tudo fechado, a parte da logística, o local da reserva. Estamos apenas esperando a licença do Ibama”, conta Alcayaga em tom entusiasmado. Para mais detalhes, sugeriu que ((o))eco contatasse Rui Almeida, sócio que idealizou o Out of Africa Brasil, pois de acordo com Alcayaga, os outros sócios sequer sabem onde ficarão os animais. A reportagem tentou, mas não conseguiu contatar Almeida.

Fachada do escritório da OOAB, instalado na avenida Juscelino Kubitschek, a mais movimentada de Palmas. (Foto: Meriele Rodrigues)

Enquanto isso, o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), responsável pelos licenciamentos ambientais no estado, já foi procurado. Alexandre Tadeu, seu presidente, diz estar se esforçando para emitir logo o Termo de Referencia (TR) solicitado pelo grupo para a construção da megaestrutura. “Não há nenhum exemplo de casos como esse para nos auxiliar”, disse ao explicar porque o Termo de Referência ainda não saiu.

Tadeu admite não conhecer detalhes do Out of Africa Brasil, mas relatou que esteve há um mês com Almeida, orientando-o sobre o processo de licenciamento no Naturatins. A previsão é que o Termo de Referência saia nos próximos dias.

“Ele me procurou, e disse brevemente que os animais seriam soltos em uma área como numa representação da cadeia alimentar das espécies”, lembra Tadeu sobre o encontro.

Numa entrevista a um telejornal local, ele declarou que o governo do estado do Tocantins está dando todo apoio e “que era parceiro do empreendimento”.

As declarações de Tadeu irritaram Carvalho. “A grande verdade é que nem a terra nós temos ainda”, emendando que não morre de amores pelo Tocantins e que poderá levar o safári para o Ceará.

A provável “reserva” de animais exóticos e nativos ficaria entre os municípios de Lizarda e São Felix, ambos localizados na Amazônia Legal. Segundo o vídeo do grupo, um “lugar extremamente favorável” para o safári.

Mas e você, o que acha dessa idéia de um Jurassic Africano no Brasil?

Via OECO, Lizardacity

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Sobre Vitor Souza

tem 25 anos é formado em Engenharia Ambiental e Sanitária. @vitorhc_ E-mail Site Save no Facebook

Publicado em 06/10/2012, em Meio Ambiente e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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